sábado, 15 de janeiro de 2011

Perder-se


Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetasdecaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michêsbaratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos.”

Caio Fernando Abreu em “A terra do Coração” – Pequenas Epifanias.

UM

A história. Começou como medo. Não sabia como. Mas era um medo rubrosangueescarlate brilhante. Rubra força infunda. Rubro de sangue, rubrode vergonha, de timidez ou de ódio. Um grande hematoma roxo. Era assimsua dor-medo de cara contorcida. Uma viagem funda e torta, entrando emespiral dentro de si. As vagas rompendo a terra por que lhes doíam as almastodas. Era seu medo rubro e fogo que lhe rebentavam a carapraia. Torcendo-lhe a face.

Mas, era além daquele rosto torcido. Era para e por que amar eranecessário que chegara até ali assim, cambaleando antes – procurado algoque não sabia o que era - e revoltoso do mundo. Quando encontrou jogou-se no fundo. No breu brilhante.

Agora, doíam-lhe as carnes suas, atormentadas e loucas, o medo enfiando-lhe duro na boca aberta uma angústia meio fina e longacheia de espinhose rosas. Era a força que lhe guiava. A força de não se pertencer. Um golede gasolina.

A história do medo começara assim devagarzinho, sutil e poderoso, comoquando pombos recolhem as migalhas nas praças. Dos homens e dossonhos. Amando e amado descobrira-se mortal e homem. Tão tolo e são.

Mas agora era essa força poderosa, um medo de perder-se e perder ooutro. Uma flama tonta e louca era esse “perder-se” entre o seu eu e ooutro. Mas depois e após, assim de rebento, lentamente e de forma frágilele não era mais ele. Era ele e o outro, misturados e trançados – nofundo. Era o outro.

O pânico de ser e de não poder invadiu-lhe aos poucos a alma irrequieta.Por que a insurreição não lhe bastava. O outro não se insurgia do mundo. Insurgia-se dele mesmo. E era além dele a miséria dos homens e entãomergulhava em si – nele-outro – misturado e múltiplo. Assim o seu eu nãoera mais eu, era também ele e nós. E foi daí, então, choroso e rubro quelhe nasceu esse medo. Medo de amor. Pois prezava muito esse outro, agoramisturado nele mesmo.

Tratava-se de uma extravagância? se perguntara ele-outro em certomomento. Mas não podia saber, por que o outro eu tomava-lhe a palavra enão respondia o que lhe perguntava. Pastava. Ele-outro-coletivo pastava-lhe sensorialmente e sentimentalmente no outro além dele.

DOIS

Você acorda apavorado. Sua – sente frio. Você tem medo da voz. Ouve umguincho vindo do térreo. Um gato caiu pela janela. embaixo, no meio doclarão ensolarado do meio-dia, ele chora. Costelas e ossos quebrados. Bocasangrando. Você sua e encharca os lençóis brancos. Mas o sangue tinge oapartamento do térreo. Porra de gato idiota, pensa você. Mas por instantessente-se como o gatocaído pela janela.

Você se levanta e vai para o banheiro. Olha no espelhodiretodireito – olheiras fundas – de pouco dormir e fumar demais. Fica confuso. Não sabe se toma um banho, fuma um cigarro ou faz um café. Sente falta do outro.

Você continua a ouvir os gritos do gato esborrachado embaixo. Por ummomento, pensa em pegar uma espingarda imaginaria e dar uns tiros nobicho. Angustia-lhe o peito seus gritos de dor. Mas vai apenas para baixodo chuveiro frio. No prédio do lado toca uma música: “... a flor também éferida aberta e não se chorar,...”

A água fria escorre por teu corpo. Nos cantos e nos becos. Nas dobradurasinquietas e roxas.

TRÊS

Não se sente o que não se pode dizer. A língua constrói o mundo. Eraestranho. Mas pronto, estava feito. O quê? Bem, não sabia ao certo. Massabia que estava feito algo que mudava as coisaspois aceitava assim.Não sabia como era, se estava feliz ou tristesimplesmente estava longedo outro. Aceitava e pronto. Ali parado era agora ele. Solitário no cafezinho da esquina, diante do jornal lido nos solavancos do ônibus ou noescritório enfadonho, não sabia mais o que era sentir – o que devia sentir.Não sabia se sentia ou dessentia. Levava uma hora e meia até o trabalho e duas horas, no final do expediente, até em casa. Muita fumaça, canosfumegando e barulho. Dor em sua cabeça tonta. Mas o seu perder-se nooutro, há tanto tempo se fora,... Agora queria esquecer. Pelo Medo quesentia, medo de estar tudo acabado, borrado, pela peste, pela dor e pelonada. Queria, mesmo assim, como antes, beijar-lhe ainda a boca forte evermelhalouco. Neste fim de tarde cinza, doía lhe a cabeça tontacafédemaiscafé de menosnoites mal dormidas. Querer contido. Doíam-lhe as dobraduras do corpo. Esticou a espinha e espiou. Pela janela, um meninoque brincava entre sacos de lixo com pedaços de vidro.

QUATRO

De repente, agora era o branco. Perdera seu perder-se nele “outro”.

CINCO

Era também aquele niilismo burro que corrompera tudo. Aquilo que o tornara cínico e seco. Sem esperança. Duro. Mesmo lembrando do bonito, do seu encontro em perder-se no outro e pelo outro,...

Mastempos aquela coisa lenta, misteriosa e triste foi invadindo aquelas duas carcaças-corpos com lama nos olhos. Era a angustiosa roseira presana gargantaum misto de tédio, medo e revolta. Por que afinal não se pode mais ser feliz para o resto da vida. Paz, segurança e compaixão sãomentiras – cínicas e deslavadas. Utopias desiludidas.

Ele e o outro não se viam com os mesmos olhos. Eram agora eles outros-outros separados. Distanciados e brancos. E os olhos eram olhos de lama.Paciência, diriam alguns. A utopia acabou, a História se foi e o que resta,talvez seja apenas uma longínqua “Viens Mallika”- suspirosa. A saudade éhoje mais triste e, sobretudo. Cínica.

Da lama – surgiu o feto. Feto, triste, branco e deformado. Seu desejodesesperado - por outras carnes aparvalhadas, por outros perderespossíveis. Por outros quereres. Mas não conseguia. Eram, um, dois, três,quatro ou cinco. Não se aproximavam e nem ele se perdia como queria.

Todos longe no seu ego melancólico. Lembrava-se sempre de “Ah! Ridi, Pagliaccio, sul tuo amore infranto!” E via-se piegas e bobo. Junto da carnede diversos outros que não eram definitivamente aquele seuoutro” deantesmas que queriam, certamente, perderem-se nele e com ele. Masnão dependia deles – um, dois, três, quatro ou cinco. Tinham apenas algunsmomentos, minutos e segundos dele. Umoi”, um perto de mão e diretodireito - para a cama. Pernas abertas, sexo – plastificado e tristepor queeram apavorados com a peste. Depois do gozo - era vestir as calças e sairpor . Afogado de solidão desinibida e úmida. Mostrando a todos, pelasruas da cidade esse seu filho-feto branco e gélido. Solidão, desejo e aternura do “outro” perdidos na lama.


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