“Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetasdecaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michêsbaratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos.”
Caio Fernando Abreu em “A terra do Coração” – Pequenas Epifanias.
UM
A história. Começou como medo. Não sabia como. Mas era um medo rubrosangue – escarlate brilhante. Rubra força infunda. Rubro de sangue, rubrode vergonha, de timidez ou de ódio. Um grande hematoma roxo. Era assimsua dor-medo de cara contorcida. Uma viagem funda e torta, entrando emespiral dentro de si. As vagas rompendo a terra por que lhes doíam as almastodas. Era seu medo rubro e fogo que lhe rebentavam a cara – praia. Torcendo-lhe a face.
Mas, era além daquele rosto torcido. Era para e por que amar eranecessário que chegara até ali assim, cambaleando antes – procurado algoque não sabia o que era - e revoltoso do mundo. Quando encontrou jogou-se no fundo. No breu brilhante.
Agora, doíam-lhe as carnes suas, atormentadas e loucas, o medo enfiando-lhe duro na boca aberta uma angústia meio fina e longa – cheia de espinhose rosas. Era a força que lhe guiava. A força de não se pertencer. Um golede gasolina.
A história do medo começara assim devagarzinho, sutil e poderoso, comoquando pombos recolhem as migalhas nas praças. Dos homens e dossonhos. Amando e amado descobrira-se mortal e homem. Tão tolo e são.
Mas agora era essa força poderosa, um medo de perder-se e perder ooutro. Uma flama tonta e louca era esse “perder-se” entre o seu eu e ooutro. Mas depois e após, assim de rebento, lentamente e de forma frágilele já não era mais ele. Era ele e o outro, misturados e trançados – nofundo. Era o outro.
O pânico de ser e de não poder invadiu-lhe aos poucos a alma irrequieta.Por que a insurreição já não lhe bastava. O outro não se insurgia do mundo. Insurgia-se dele mesmo. E era além dele a miséria dos homens e entãomergulhava em si – nele-outro – misturado e múltiplo. Assim o seu eu nãoera mais eu, era também ele e nós. E foi daí, então, choroso e rubro quelhe nasceu esse medo. Medo de amor. Pois prezava muito esse outro, agoramisturado nele mesmo.
Tratava-se de uma extravagância? Já se perguntara ele-outro em certomomento. Mas não podia saber, por que o outro eu tomava-lhe a palavra enão respondia o que lhe perguntava. Pastava. Ele-outro-coletivo pastava-lhe sensorialmente e sentimentalmente no outro além dele.
DOIS
Você acorda apavorado. Sua – sente frio. Você tem medo da voz. Ouve umguincho vindo do térreo. Um gato caiu pela janela. Lá embaixo, no meio doclarão ensolarado do meio-dia, ele chora. Costelas e ossos quebrados. Bocasangrando. Você sua e encharca os lençóis brancos. Mas o sangue tinge oapartamento do térreo. Porra de gato idiota, pensa você. Mas por instantessente-se como o gato – caído pela janela.
Você se levanta e vai para o banheiro. Olha no espelho – direto – direito – olheiras fundas – de pouco dormir e fumar demais. Fica confuso. Não sabe se toma um banho, fuma um cigarro ou faz um café. Sente falta do outro.
Você continua a ouvir os gritos do gato esborrachado lá embaixo. Por ummomento, pensa em pegar uma espingarda imaginaria e dar uns tiros nobicho. Angustia-lhe o peito seus gritos de dor. Mas vai apenas para baixodo chuveiro frio. No prédio do lado toca uma música: “... a flor também éferida aberta e não se vê chorar,...”
A água fria escorre por teu corpo. Nos cantos e nos becos. Nas dobradurasinquietas e roxas.
TRÊS
Não se sente o que não se pode dizer. A língua constrói o mundo. Eraestranho. Mas pronto, estava feito. O quê? Bem, não sabia ao certo. Massabia que estava feito algo que mudava as coisas – pois aceitava assim.Não sabia como era, se estava feliz ou triste – simplesmente estava longedo outro. Aceitava e pronto. Ali parado era agora só ele. Solitário no cafezinho da esquina, diante do jornal lido nos solavancos do ônibus ou noescritório enfadonho, não sabia mais o que era sentir – o que devia sentir.Não sabia se sentia ou dessentia. Levava uma hora e meia até o trabalho e duas horas, no final do expediente, até em casa. Muita fumaça, canosfumegando e barulho. Dor em sua cabeça tonta. Mas o seu perder-se nooutro, há tanto tempo se fora,... Agora queria esquecer. Pelo Medo quesentia, medo de estar tudo acabado, borrado, pela peste, pela dor e pelonada. Queria, mesmo assim, como antes, beijar-lhe ainda a boca forte evermelha – louco. Neste fim de tarde cinza, doía lhe a cabeça tonta – cafédemais – café de menos – noites mal dormidas. Querer contido. Doíam-lhe as dobraduras do corpo. Esticou a espinha e espiou. Pela janela, um meninoque brincava entre sacos de lixo com pedaços de vidro.
QUATRO
De repente, agora só era o branco. Perdera seu perder-se nele “outro”.
CINCO
Era também aquele niilismo burro que já corrompera tudo. Aquilo que o tornara cínico e seco. Sem esperança. Duro. Mesmo lembrando do bonito, do seu encontro em perder-se no outro e pelo outro,...
Mas há tempos aquela coisa lenta, misteriosa e triste foi invadindo aquelas duas carcaças-corpos com lama nos olhos. Era a angustiosa roseira presana garganta – um misto de tédio, medo e revolta. Por que afinal não se pode mais ser feliz para o resto da vida. Paz, segurança e compaixão sãomentiras – cínicas e deslavadas. Utopias desiludidas.
Ele e o outro já não se viam com os mesmos olhos. Eram agora eles outros-outros separados. Distanciados e brancos. E os olhos eram olhos de lama.Paciência, diriam alguns. A utopia acabou, a História se foi e o que resta,talvez seja apenas uma longínqua “Viens Mallika”- suspirosa. A saudade éhoje mais triste e, sobretudo. Cínica.
Da lama – surgiu o feto. Feto, triste, branco e deformado. Seu desejodesesperado - por outras carnes aparvalhadas, por outros perderespossíveis. Por outros quereres. Mas não conseguia. Eram, um, dois, três,quatro ou cinco. Não se aproximavam e nem ele se perdia como queria.
Todos longe no seu ego melancólico. Lembrava-se sempre de “Ah! Ridi, Pagliaccio, sul tuo amore infranto!” E via-se piegas e bobo. Junto da carnede diversos outros que não eram definitivamente aquele seu “outro” deantes – mas que queriam, certamente, perderem-se nele e com ele. Masnão dependia deles – um, dois, três, quatro ou cinco. Tinham apenas algunsmomentos, minutos e segundos dele. Um “oi”, um perto de mão e direto –direito - para a cama. Pernas abertas, sexo – plastificado e triste – por queeram apavorados com a peste. Depois do gozo - era vestir as calças e sairpor aí. Afogado de solidão desinibida e úmida. Mostrando a todos, pelasruas da cidade esse seu filho-feto branco e gélido. Solidão, desejo e aternura do “outro” perdidos na lama.